sábado, 20 de julho de 2002

E já que estamos falando de política, vou colocar aqui um artigo sensacional publicado na última quarta-feira, no jornal Valor Econômico. O link é esse, eu sei que é meio chato ler textos grandes na intenet, mas este é inevitável pois atinge sua cidadania e pode influir diretamente na hora de escolher nosso próximo presidente. O artigo é da economista Eliana Cardoso e tira um pouco da máscara de Ciro Gomes, de longe o pior e mais perigoso candidato deste ano.

O VIRA-CASACA

"Não voto em Ciro Gomes porque ele não me inspira confiança. Manipula fatos a seu favor. Usa números para confundir em vez de esclarecer. É mal informado. Muda de opinião quando lhe convém. E sua personalidade messiânica lembra as personalidades de Jânio Quadros e Fernando Collor de Mello.

Ciro manipula fatos. Quando fala de sua ligação com o Real não menciona que quando assumiu o cargo de Ministro da Fazenda a nova moeda já estava em circulação. Nem que chegou ao posto quase por acaso, nomeado por Itamar após a demissão do Ministro Ricupero por causa de uma entrevista infeliz. Não relata que ocupou o ministério por apenas quatro meses e que não foi confirmado no cargo por FHC: conflitos com outros membros da equipe econômica faziam de Ciro um entrave ao bom funcionamento do programa. Despeitado, prefere dizer ao Valor, 11/7/2002, que foi ele quem rompeu com o governo.

A desinformação de Ciro Gomes sobre nosso sistema tributário é flagrante na entrevista que deu ao Jornal Nacional

Na entrevista ao Jornal Nacional, 8/7/2002, diz que suas metas são objetivas, mas na entrevista à Época, 8/7/2002, diz que sua meta de inflação é zero. Embora já tenha dito que é contra as metas de inflação, agora diz que está disposto a conversar com Armínio Fraga. Se ele viesse a firmar um acordo de transição, que valor teria seu compromisso?

Na entrevista ao Jornal Nacional, proclamou-se um homem indignado. Mas o bate-boca com seus entrevistadores da Época revela um homem destemperado e temperamental. Um político sem autocontrole seria um desastre como presidente. Indagado sobre a razão da escolha de seu irmão para tesoureiro eleitoral, Ciro respondeu: "Não é da sua conta". Um megalomaníaco supõe que o financiamento de sua campanha eleitoral esteja acima do escrutínio de jornalistas e eleitores.

A desinformação de Ciro Gomes sobre nosso sistema tributário é flagrante na entrevista ao Jornal Nacional. Ali, disse que o Brasil precisa de um imposto sobre o consumo de produtos supérfluos como bebidas, cigarros e carros de passeio. O imposto sobre produtos supérfluos já existe: as taxas seletivas do IPI são muito mais altas para os produtos mencionados. O candidato erra outra vez quando diz que o imposto deveria ser na ponta, na hora de comprar, e que assim é em alguns países da Europa. Lá como aqui, o imposto sobre produtos de luxo é cobrado do fabricante ou no ato da importação por que seria impraticável fazê-lo de outra forma.

O PFL vai achar difícil proibir o candidato de falar sobre economia porque Ciro é arrogante e acha que sabe mais que qualquer assessor sobre qualquer assunto. No começo de março, num jantar oferecido pelo banco de investimento SalomonSmithBarney, durante o encontro do BID em Fortaleza, assisti a forma descortês e desrespeitosa com que Ciro tratou seu tradutor.

No mesmo jantar, ele disse várias vezes que a dívida pública é "impagável" e propôs o alongamento da dívida através do aumento da taxa de juros. Márcio Garcia, no Valor de 12/7/2002, esclarece com argumentos e números o equívoco da proposta de Ciro. Não é preciso repetir os argumentos do professor da PUC. Mas as idéias do candidato provocaram uma reação da revista Economist desta semana: "Comparado com Ciro Gomes, Lula parece um homem com o qual o FMI estaria disposto a negociar".

Seduzido pelo apoio de parte do PFL e decidido a atrair um eleitorado mais à direita, Ciro agora vira a casaca... Porque precisa do dinheiro dos banqueiros para financiar sua campanha, calibra seu discurso. Mas as histórias das incoerências de sua vida política e de suas declarações públicas trabalham contra sua credibilidade.

Obcecado por dossiês e informações de grampos obtidas de " um brasileiro " , Ciro revela idéias delirantes como as que perseguiram Jânio Quadros.

Em 1959, eu entrava na adolescência com ouvidos vorazes. Faltava pouco tempo para a convenção da UDN. Sentado numa cadeira de vime no sítio de meu pai, Milton Campos ainda expressava temores sobre a aventura que Jânio representava. Mas na convenção de 8/11/59, comandada por Carlos Lacerda, a UDN homologou o nome de Jânio Quadros como candidato à presidência. Juracy Magalhães, o candidato derrotado, terminou seu discurso na Convenção indagando dos udenistas o que fariam quando Jânio os traísse.

Quando fala de sua ligação com o Real, Ciro não menciona que quando assumiu o cargo de Ministro da Fazenda a nova moeda já estava em circulação

Inaugurado seu governo, Jânio reaproximou-se da esquerda. Num mundo dividido pela cortina de ferro, enviou João Goulart em visita oficial à China. Determinou a Afonso Arinos que restabelecesse relações diplomáticas entre o Brasil e a União Soviética. Condecorou Che Guevara. Messiânico, temperamental, ávido de êxito, faminto de poder, dizia que era praticamente impossível governar o Brasil com " este " Congresso. Acabou renunciando e mergulhando o país numa profunda crise política e econômica. Ciro Gomes é temperamental e imprevisível como Quadros.

Em 1959, José Sarney era vice-líder da bancada da UDN. Continua um político disposto a novas aventuras. Ressentido pela derrota de sua filha, não tem peias em aderir às promessas contraditórias de Ciro, deixando de lado a lição que deveria ter aprendido com a experiência de Jânio. ACM e parte do PFL, despeitados pelo alijamento do poder, cometem o mesmo erro que cometeram com Collor.

Mas nós, eleitores, podemos avaliar os erros de políticos que - esquecidos do bem do país e interessados apenas nas próprias mágoas e ambições pessoais - pedem-nos para abraçar o risco de um vira-casaca temperamental. Mais clara na nossa memória do que a figura de Jânio Quadros é a imagem de Collor de Melo. CIRO É O CLONE DE COLLORO Congresso já não aprova calotes. Mas um presidente pode criar grande instabilidade interferindo no Banco Central. A imaginação dos aventureiros não tem limites. Mas as crises de governabilidade são sempre profundas."

Eliana Cardoso , economista, escreve às quartas-feiras no Valor Econômico. E-mail: elianacardoso@earthlink.net

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